Dezembro Vermelho: O Tabu da Sexualidade na Maturidade e a Prevenção de ISTs

Dezembro Vermelho: O Tabu da Sexualidade na Maturidade e a Prevenção de ISTs Saúde e Bem-estar

O prazer tem data de validade?

Absolutamente não. Sexo aos sessenta, setenta ou oitenta anos continua sendo sexo, mas a sociedade insiste em tratar nossos corpos como se fossem apenas recipientes para dores articulares e receitas de bolo. No consultório, vejo mulheres que, após décadas de um casamento morno ou anos de viuvez, redescobrem a libido e a parceria. Isso é maravilhoso. No entanto, essa liberdade nova ou renovada traz um convidado indesejado que muitos ignoram: o risco real das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) na terceira idade. O dezembro Vermelho chega para nos lembrar que o laço no peito não é apenas para jovens de vinte anos em baladas paulistanas; ele é para a avó que voltou a namorar no interior de Minas ou para a frequentadora assídua dos bailes da terceira idade no litoral catarinense.

Dados do Ministério da Saúde mostram um salto preocupante nos diagnósticos de HIV e sífilis em pessoas com mais de 60 anos. Por que isso acontece? Primeiro, a ausência do medo da gravidez. Para quem já passou pela menopausa, a camisinha parece um acessório obsoleto. Ledo engano. A mucosa vaginal, com o passar dos anos e a queda do estrogênio, torna-se mais fina e frágil. Pequenas fissuras invisíveis a olho nu aparecem durante a relação, servindo como portas abertas para vírus e bactérias. É uma questão biológica, não apenas de comportamento.

A barreira do silêncio no consultório

Muitas vezes, o problema começa na cadeira do médico. O geriatra pergunta sobre a pressão, o cardiologista sobre o colesterol, mas raramente alguém pergunta: “Como vai sua vida sexual?”. Existe um preconceito velado de que idosos são seres assexuados. Se o profissional não pergunta, a paciente, por vergonha ou por achar que ‘isso não é mais para a idade dela’, se cala.

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Foto por Tessy Agbonome via Pexels

Esse silêncio é perigoso. Precisamos falar sobre lubrificantes à base de água que não danificam o látex e sobre a importância de exigir o teste de ISTs do novo parceiro, por mais gentil e ‘limpinhos’ que eles pareçam. Afinal, vírus não têm rosto e muito menos idade.

Sífilis e HIV: O inimigo mora ao lado

A sífilis, em particular, tem feito um estrago silencioso. Muitos confundem as manchas na pele com alergias ou ‘coisas da idade’. Como não dói e muitas vezes desaparece espontaneamente na fase inicial, a doença progride para estágios latentes que podem afetar o sistema nervoso central. Quando atendemos casos de demência súbita ou problemas de coordenação motora, a última coisa que a família suspeita é de uma sífilis não tratada de dez anos atrás. É um diagnóstico que exige coragem para ser investigado e humildade para ser aceito.

No caso do HIV, o estigma é ainda mais pesado. A mulher madura sente que falhou ou que está sendo julgada por viver sua sexualidade. Precisamos quebrar essa barreira. O tratamento hoje permite uma vida longa e saudável, mas o diagnóstico tardio na terceira idade é comum justamente porque ninguém testa quem tem cabelo branco. O Dezembro Vermelho não é sobre medo; é sobre autonomia. Ter a informação é ter o controle sobre o próprio corpo, algo que as mulheres da nossa geração lutaram tanto para conquistar.

Estratégias práticas de proteção e conversa

Se você conheceu alguém interessante no grupo de hidroginástica ou em um aplicativo de relacionamentos — sim, elas usam e muito —, a conversa sobre saúde precisa acontecer cedo. Não é falta de romantismo, é autocuidado. Se o parceiro se recusa a usar preservativo ou se sente ofendido pelo pedido de um exame, isso já diz muito sobre o quanto ele valoriza sua vida.

  • Use lubrificantes vaginais específicos para evitar microlesões.
  • Mantenha o preventivo (Papanicolau) e os exames de sangue em dia, incluindo sorologias.
  • Não aceite o argumento de que ‘na nossa idade não precisa mais disso’.

O corpo muda, a lubrificação diminui, mas o desejo de conexão e toque permanece. Ignorar a saúde sexual na maturidade é uma forma de violência contra si mesma.

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Foto por Pavel Danilyuk via Pexels

A prevenção deve ser vista como uma aliada do prazer, garantindo que os anos dourados sejam vividos com plenitude, sem sustos que poderiam ter sido evitados com uma simples conversa ou um pedaço de látex. A maturidade nos trouxe sabedoria para decidir o que queremos comer, onde queremos viajar e com quem queremos estar; usemos essa mesma sabedoria para decidir como vamos nos proteger. O autocuidado é o maior ato de liberdade que uma mulher pode exercer, independentemente de quantas velas existam no bolo de aniversário.

O papel da família e da sociedade

Filhos e netos precisam entender que seus pais e avós têm desejos. Quando a família acolhe a ideia de que a matriarca está namorando, o espaço para falar sobre saúde se abre. Menos julgamento e mais diálogo salvam vidas. Não espere que o sistema de saúde mude sozinho; tome a iniciativa de questionar seu médico e de proteger sua saúde com a mesma firmeza com que você cuida de todos ao seu redor. Saúde sexual é saúde integral, e o Dezembro Vermelho é o momento de colocar esse tema na mesa, sem gaguejar e sem baixar o olhar.

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